sábado, 18 de junho de 2011

Resenha do livro "Libertinagem"

BANDEIRA, Manuel. Libertinagem. 5. ed. São Paulo: Nova Fronteira, 1995.

Publicado em 1930, Libertinagem é o primeiro livro inteiramente modernista de Manuel Bandeira. O autor tornou-se precursor do movimento que marcou a ruptura do Parnasianismo na poesia brasileira, ao lado de Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade e outros poetas. Abandonando as formas tradicionais acadêmicas do Parnasianismo, Bandeira mostra em Libertinagem uma liberdade de expressão e uma linguagem coloquial através de uma simplicidade consentida e elaborada, proposta pelo Modernismo. Neste movimento, surge um sujeito evasivo que representa propriamente uma objetivação do eu, uma ruptura das defesas e barreiras para o exterior, que permitiu o espaço para o grito de liberdade representado em Libertinagem.
A linguagem fácil, em que a obra foi escrita, torna a compreensão da leitura acessível ao mais leigo leitor de poesia. É como se o poeta quisesse escrever sobre si próprio, demonstrando o quanto é necessário se curvar à humildade diante dos fatos da vida. O autor descreve a infância e redescobre a pureza que existe dentro de cada um, sob um olhar que não seja crítico, tornando-se uma pessoa acessível. A magia encontrada dentro de cada poema faz com que o leitor reencontre seus mais ternos sentimentos.
Cada verso dos trinta e oito poemas penetra no íntimo do leitor. Essa argúcia extrai a sensibilidade adormecida, há tempos, dentro do indivíduo que se encontra perdido num emaranhado de acontecimentos que, ao que parece, estão fora de seu controle. A maneira que o poeta valoriza a vida, os familiares e as pequenas coisas que passam despercebidas, tudo isso está presente nos poemas dessa obra. A utilização de versos livres e a liberdade de criação sem a obrigatoriedade da rima com o mesmo número de sílabas são comuns à poesia do Modernismo. Como pode-se observar no poema pneumotórax abaixo:
Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.


Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.
 
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— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
                   No poema há uma tranqüilidade, o equilíbrio com que o eu lírico relaciona-se com a morte "- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? / - Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino", ao demonstrar que a morte é um acontecimento natural e intrínseco aos entes vivos. O poeta transforma uma situação perturbadora em algo sereno e até cômico, por meio de uma linguagem simples, que parte dos sintomas, passa pelo diagnóstico da enfermidade e desemboca em um desfecho àquela altura natural, em que a fala do médico traduz que "a vida inteira que podia ter sido e que não foi" continua sendo o que é. Com efeito, a morte é algo comum na obra de Bandeira, está indissociavelmente ligada à sua lírica e à sua vida. Sendo assim, muitos outros de seus poemas têm como tema a morte, mas incessantemente ligada à vida
      Libertinagem é um livro modernista, pois incorpora a fala coloquial e até realizações incultas da língua. Há uma valorização de fatos e coisas do cotidiano, algumas, inclusive, vivenciadas pelo autor. Essa valorização teve como resultado uma construção poética, na qual se podem observar detalhes, o que demonstra o total desapego às coisas efêmeras, as quais, para muitos, têm extrema importância.  Embora o livro contenha algumas poesias que lembram certas passagens tristes da vida do autor, como pneumatórax, anjo da guarda e poema de finados, não se trata de uma obra melancólica ou depressiva

Bárbara Gonçalves
Dáffini Barcelar
Gislaine Pereira
Marineide Santos

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