sexta-feira, 27 de maio de 2011

Resenha do livro "Por que (não) Ensinar Gramática na Escola"

POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas, SP: Mercado de Letras, 1996. (Coleção Leituras no Brasil).
                              

Sírio Possenti é graduado em Filosofia (Pontifícia Universidade Católica do Paraná, 1969), mestre em Linguística (Universidade Estadual de Campinas, 1977) e doutor em Linguística (Universidade Estadual de Campinas, 1986). Atualmente, é professor associado ao departamento de Linguística da Universidade Estadual de Campinas, onde coordena o FEsTA: Centro de Pesquisa, Fórmulas e Estereótipos. Autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, publicou ainda: Discurso, estilo e subjetividade; Os humores da língua; Os limites do discurso: questões para analistas do discurso; Língua na mídia; Malcomportadas Línguas, Humor, língua e discurso.

Por que (não) ensinar gramática na escola desperta e prende a atenção do leitor desde o título. Ao utilizar o não entre parênteses, o autor remete à problemática questão que parece dividir gramáticos e linguistas. O livro, fruto da reunião de dois textos menores e escritos como resposta a pequenos desafios apresentados por outros pesquisadores, reúne as ideias do autor sobre o papel que a gramática exerce na educação e no ensino da língua materna, assim como as teses que embasam sua posição. Como apontado na introdução, não se trata de nada novo e (ou) inovador na área, apenas uma reunião de textos e opiniões acerca do uso da gramática na sala de aula.

O livro é dividido em duas partes. Na primeira, são apresentadas dez teses básicas, as quais Possenti aponta como essenciais para um bem-sucedido ensino de língua materna.

A primeira tese abordada pelo autor é a de que ‘O papel da escola é ensinar língua padrão’, em que defende que a escola deve realmente criar condições para que o português padrão seja aprendido, independentemente de quais dialetos, diferentes do padrão, sejam utilizados pelos alunos. Possenti defende que, do ponto de vista cognitivo, um falante pode dominar várias línguas ou dialetos, e que o único erro quanto ao ensino do português padrão seria sua imposição a quem não o fala usualmente. O autor é muito coerente em sua descrição de língua padrão, como sendo a capacidade de escrever e ler. O domínio dessas duas habilidades é essencial para o aprendizado eficaz de qualquer língua.

Em ‘Damos aulas de que a quem?’, Possenti discorre sobre a necessidade que têm professores e escola de possuírem uma concepção clara do que seja a língua e do que seja uma criança. Segundo ele, tal conhecimento revelaria o sucesso das crianças em aprender as regras necessárias para se comunicar através da fala. Por mais complexas que sejam as línguas, as crianças são perfeitamente capazes de aprendê-las. O autor chama a atenção para a existência de dois processos através dos quais seres humanos adquirem conhecimento: repetição exaustiva de certos movimentos, semelhante ao treinamento de animais; e habilidades adquiridas de forma mais criativa, alicerçadas na consideração e teste de hipóteses. O autor é bem claro ao identificar a prática de ensino atual como pertencente à técnica da repetição exaustiva. Sua visão e distinção entre as duas formas de aquisição de conhecimento é pertinente e totalmente relevante a quem deseje oferecer aos  alunos um ensino de qualidade.

Em ‘Não há línguas fáceis ou difíceis’, ele apresenta noção sobre as línguas possuírem igual complexidade e semelhança estrutural, conclusão que se baseia no reconhecimento da inexistência de línguas primitivas e, portanto, mais simples. Esse equivocado julgamento de valor sempre se apoiou na oposição entre primitivo e civilizado. O autor conclui que não é mais fácil estudar um dialeto, ou língua, do que outro(a), e que um falante de uma língua ou dialeto deve ser considerado tão capaz quanto o falante de outra variação linguística. Essa tese poderia ser melhor representada, se utilizados exemplos reais de dois dialetos, um considerado inferior e outro adequado, encontrados em sociedade.

Com ‘Todos os que falam sabem falar’, o autor desconstrói outro preconceito linguístico. Ao ignorar o contexto social e cultural em que surge uma variação linguística, julgando seus falantes de acordo com um contexto que lhes é estranho, acaba-se por condená-los, considerando-os ultrapassados e inferiores. Possenti demonstra que, apesar de eventuais peculiaridades, todos os falantes de uma língua, incluindo seus dialetos, tanto sabem falar que o fazem o tempo todo, construindo frases morfológica e sintaticamente corretas, mesmo que não possuam o conhecimento das regras em torno dessas estruturas gramaticais. O autor relaciona, com perspicácia, essa tese ao ensino em sala de aula, defendendo que os professores deveriam ensinar ao aluno aquilo que eles, de fato, não sabem e não o que já dominam. Ele assinala que é no âmbito do texto, sua produção e técnicas eficientes de leitura, que a escola deve concentrar seus esforços no ensino da língua.

‘Não existem línguas uniformes’ trata do erro com que algumas pessoas julgam uma língua devido à sua heterogeneidade, ou seja, consideram que essa língua seja inferior simplesmente porque apresenta variações entre seus falantes. Possenti aponta para o fato de que todas as línguas, sem exceção, apresentam variações quanto às suas comunidades de falantes, sendo que essas variações derivam de dois fatores: externos à língua (geográficos, sociais, de idade, profissionais etc.) e internos (assimilados pelos falantes e direcionadores das características da fala). O autor evidencia o absurdo da ideia de uniformidade de uma língua. Sua defesa da multiplicidade de variações de um idioma é coerente com a realidade linguística obervada nos diferentes contextos sociais e encontrada também no âmbito da escola.     

‘Não existem línguas imutáveis’ apresenta o caráter de evolução das línguas. Todas as línguas mudam, de acordo com o tempo e com o uso que se faz delas. É utilizada a questão dos arcaísmos para exemplificar a evolução natural de uma língua, demonstrando que formas mais antigas de palavras caem em desuso, sendo substituídas por outras mais recentes. Além disso, coloca-se a contradição de que gramáticas e escolas continuam a ensinar formas arcaizadas aos alunos, embora já não façam mais parte de seu universo linguístico. Sua leitura dessa contradição é apurada, e seus exemplos são fáceis de assimilação, remetendo ao abismo entre a realidade dos manuais de ensino normativos e o uso real da língua.

Com ‘Falamos mais corretamente do que pensamos’, o autor pretende demonstrar que há um destaque indevido para erros observados na fala de um indivíduo e (ou) comunidade de falantes, o que se observa também nas salas de aula. Professores contabilizam erros indiscriminadamente, quando, segundo Possenti, deveriam considerar a classe dos erros cometidos, o que lhes permitiria direcionar o ensino para a correção de tais desvios. Além disso, a ideia de que alguém possua a fala ‘toda’ errada não corresponde à realidade. Falamos segundo normas estruturais internalizadas, de forma que eventuais erros de pronúncia e (ou) concordância não significam que alguém não saiba falar corretamente.

‘Língua não se ensina, se aprende’ se reporta ao modo como as crianças aprendem a língua sem que sejam ensinadas. Quando chegam às escolas, as crianças já apresentam uma gramática interna, sem que seus pais a tenham ensinado. Os pais corrigem os erros dos filhos, sim, mas não lhes ensinam segundo os moldes da escola. O autor se vale dessa característica de aprendizado da língua através da interação com outros falantes, como a criança primeiro aprende, para ressaltar a importância de que a escola ensine à criança aquilo que ela, de fato, desconhece sobre a língua, destacando a leitura e a escrita. Novamente ele obtém êxito ao falar sobre uma característica que deveria ser melhor trabalhada no sistema de ensino.

Uma das premissas mais importantes apresentadas pelo autor e que, segundo o próprio, é a mais óbvia e menos seguida, questiona: ‘Sabemos o que os alunos ainda não sabem?’. Possenti diz que esse conhecimento a respeito dos alunos permitiria que estratégias de ensino fossem traçadas e aplicadas, em substituição à didática ineficaz de decidir o que ensinar em cada série. Para ele, o ensino de uma língua a partir do zero só seria aconselhado para línguas estrangeiras, em que o aluno não conhece nada do novo idioma. Desvendado o que o aluno sabe sobre leitura, produção de textos e gramática, por exemplo, professores poderiam partir para novas possibilidades a respeito desses temas, de forma a ampliar o conhecimento dos alunos e evitar que os mesmos se sintam desmotivados por terem que aprender aquilo que já sabem.    

‘Ensinar língua ou ensinar gramática’ é a última das teses que o autor aponta como essenciais ao ensino de língua materna. Aqui ele reforça uma certeza, já sugerida pelo estudo das demais teses: saber uma língua não implica dominar o conhecimento técnico das regras com as quais essa língua é estruturada. Ensinar gramática não é, definitivamente, ensinar língua e vice-versa. A gramática deve ser vista como uma coadjuvante, jamais como a personagem principal no ensino da língua, devendo dividir a atenção com as práticas de produção, leitura e interpretação de textos, sendo que essas práticas é que deveriam vir em primeiro lugar no ensino. O autor acerta ao indicar, no final dessa tese, que toda e qualquer mudança no enfoque dado ao ensino da língua deverá partir dos professores, principais agentes de qualquer projeto de ensino.

Tendo elencado as bases para o ensino de língua materna, Possenti apresenta a segunda parte de seu trabalho, na qual procura expor conceitos de gramática que considera relevantes para uma proposta de ensino, enquanto tenta desenhar seu papel na escola.

O autor começa defendendo sua crença em que o ensino de gramática é muito diferente quando se considera que ela não é indispensável para o ensino, que seu estudo difere do domínio ativo da língua e que apresenta vários tipos. Depois, define que o estudo da gramática é entendido como a soma de: a) um estudo relacionado a aspectos ortográficos, concordância, regência, pronomes oblíquos etc.; b) uma análise de determinadas construções: critérios para distinguir entre vogais e consoantes, descoberta de partes das palavras, análise sintática etc. O autor relata uma grande discussão em torno da gramática, com relativa mudança de discurso, mas nenhuma mudança significativa nas práticas de ensino.

Após sugerir que se tome como significado para gramática um conjunto de regras, Possenti destaca três formas de compreensão desse conjunto: regras que devem ser seguidas; regras que são seguidas e regras que o falante da língua domina. Feito isso, ele as relaciona com os tipos de gramática existentes, bem como às definições que apresenta para língua, regras e erro.

Primeiro ele define gramática normativa como a mais conhecida pelos professores dos ensinos Fundamental e Médio. Ela representa o conjunto de regras que devem ser seguidas, daí o nome normativo. Tais regras destinam-se a fazer com que leitores aprendam a falar e escrever corretamente, de acordo com a variedade padrão. Nesse contexto, a língua corresponde às formas de expressão produzidas pelas pessoas cultas. A língua escrita funciona como modelo e passa a representar a própria língua. No caso do Português, a língua escrita elaborada por escritores literários condicionou a norma chamada culta ou variante padrão e tudo que diverge dessa norma é considerado erro, vício de linguagem ou vulgarismo. As regras são interpretadas como algo a ser obedecido, sob pena de punição para quem as desrespeita. Considera-se erro tudo aquilo que foge à variedade eleita como exemplo de boa linguagem, altamente idealizada e buscada no passado.

Em seguida, apresenta a gramática descritiva, que orienta o trabalho de linguistas preocupados em descrever e (ou) explicar as línguas como são, de fato, faladas. Representa o conjunto de regras que são seguidas. Em tal concepção, a língua é estudada sem que nenhuma variação seja desqualificada como não pertencente à mesma. Há um esforço em encontrar as regularidades que condicionam essa variação e a noção de regra é a de algo regular, constante, a exemplo das leis da natureza, não sugerindo nenhuma sanção. O erro se apresentaria na ocorrência de formas que não pertencem, de maneira sistemática, a nenhuma das variações da língua.

Tendo explicado as gramáticas normativa e descritiva, Possenti apresenta a gramática Internalizada, referente a hipóteses sobre conhecimentos, que permitem aos falantes produzir sequências de palavras compreendidas e reconhecidas como pertencentes a uma língua específica, o que se dá através da forma e disposição que essas palavras ocupam nas sequências, assim como de seus sons. Representa o conjunto de regras que o falante domina, sendo-lhe internalizada através dos conhecimentos lexical (capacidade de emprego adequado das palavras) e sintático-semântico (distribuição das palavras na sentença e efeito dessa distribuição para o sentido). A língua reconhece que, sendo os fatos linguísticos variáveis, as regras que o falante implicitamente domina também o são, incluindo condicionamentos externos e estruturais. As regras são, também, algo de regular, constante e sem nenhuma sanção. Aqui o erro ocorreria se observados problemas quanto à posição que as palavras ocupam em uma sequência e na produção de sentido que essa posição permeia.

As descrições do autor sobre os tipos de gramática são breves, embora bem exemplificadas e de fácil compreensão. São pertinentes suas considerações a respeito de língua, das quais se apreende o caráter equivocado do padrão culto extraído a partir da literatura, contemplado pela gramática normativa, bem como a relevância de uma abordagem sistêmica que envolva a análise proposta pelas gramáticas descritiva e internalizada. No que concerne às regras, Possenti comenta que a escolha de seguir a uma ou outra regra será julgada pela sociedade, sendo classificada como culta ou não, mas que tal escolha não significa maior ou menor inteligência do falante. No campo teórico, as ideias do autor são de fácil aplicação, mas, observadas as regras e convenções sociais às quais se está vinculado, é pouco provável que alguém se arrisque a desafiar a ordem, optando por um conjunto de regras do segundo tipo, o que faz com que seu discurso soe utópico.

Encerrando seu trabalho, Possenti apresenta o esboço de uma metodologia prática, a ser implementada na escola, que considera as teorias com as quais trabalhou ao longo da obra. Segundo esse modelo, indica que a gramática seja trabalhada através da leitura, escrita, narrativa oral, debate e todas as formas de interpretação, excluindo lições de nomenclatura, análise sintática e morfológica. O ensino da língua deve priorizar o conhecimento interiorizado, em um processo que articule formulações, teste e consequente aceitação ou recusa de hipóteses. Aos professores cabe evitar a artificialidade, comumente observada nas práticas escolares. As regras contemplam ensinar o domínio dos usos vários de uma língua, devendo-se buscar no conhecimento da língua a compreensão dos aspectos gramaticais. Quanto ao erro, no âmbito da escola, poderia significar o uso de uma variação não padrão da língua em uma situação que a exigisse, sendo corrigido a longo prazo e evitando a condenação do aluno no processo. Além disso, também seria considerado erro uma hipótese errada formulada pelo aluno diante do aprendizado de uma variedade nova. Sua correção será feita com a apresentação da forma correta, também de forma não estigmatizada. O autor finaliza defendendo uma prática de ensino na escola, em que os três tipos de gramáticas sejam trabalhados, mas na ordem inversa da que se observa hoje. Trabalhar-se-á primeiro a gramática internalizada, depois a descritiva e, por último, a normativa. Esse esboço de metodologia contempla as premissas que Possenti explicita ao longo do livro, embora sua aplicação em sala de aula seja dificultada, senão impedida, graças à resistência com que o sistema de ensino reage a mudanças na prática consolidada em torno do ensino da gramática. O mais difícil, com relação a mudar tal abordagem, parece residir no fato de que ela continua orientando o ensino fundamental e médio, além de figurar em provas de vestibulares e concursos por todo o país. Romper com esse círculo é muito difícil, mesmo com todas as teses e estudos de qualidade, a exemplo do livro analisado, com que linguistas vêm propondo mudanças a um longo tempo.  






GRASIELLE CRISTINE PINTO CHALUB
PAULA SOUZA RÉGIS
RITA ANÁLIA GUIMARÃES
RONNIE ALVES FERREIRA

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